Mariangela Hungria da Cunha
A ciência e a cientista fazendo acontecer a agricultura e a balança comercial brasileira. Para um planeta mais ecológico.
Quem é da área do direito e nunca ouviu falar em Nelson Hungria (Hoffbauer) (1891-1969)? Não sei se há parentesco, mas hoje quero falar sobre Mariangela Hungria da Cunha. Notícia do sítio G1, de 15/04/2026, divulgou informação segundo a qual a aludida engenheira agrônoma e microbiologista, constaria na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo, consoante ranqueamento da revista Time. A cientista e profissional trabalha na EMBRAPA. Ela manipulou bactérias de modo que esse recurso biológico fosse empregado na fixação de nitrogênio no solo. A consequência prática dessa metodologia torna-se visível, considerando-se que, 85% da soja brasileira é cultivada, hoje, com esses micro-organismos, evitando-se demanda de fertilizantes químicos tradicionais. A técnica acarreta um barateamento produtivo. Os empresários brasileiros, juntos, deixam de gastar US$ 25 bilhões, ao ano. Ainda tomando-se o ano como período de referência, 230 milhões de toneladas de dióxido de carbono deixam de ser emitidas. Em 2025, a pesquisadora em apreço e em epígrafe, recebeu o World Food Prize, a premiação máxima da agricultura, o que, por analogia, poderia ser chamado de “Nobel da Agricultura”. Do ponto de vista filosófico e ético, as iniciativas merecem encômio. A viabilidade econômica se vê aumentada, o ganho ecológico é indiscutível, e a inovação favorece trabalhadores da sojicultura e consumidores. Os empresários do agronegócio estão cada vez mais articulados, e, atualmente, existe um investimento na mídia no sentido de ressaltar a relevância dessa atividade econômica para o Brasil. Aproveito o ensejo para recuperar a noção de que o agro se materializa muito por conta de pessoas com o perfil de Mariangela. O Brasil deve e precisa investir em pesquisa científica. A questão climática é um dos temas mais caros aos simpósios internacionais, que congregam representantes políticos das maiores economias do planeta. Há um consenso de que o controle da temperatura média da Terra só poderá ser alcançado se houver diminuição na emissão de dióxido de carbono. Evitar fertilizantes químicos é deixar de poluir a terra, a água e o ar. Técnicas mais racionais e menos agressivas, ao meio ambiente e à força de trabalho, fazem dos nossos produtos agrícolas itens mais comercializáveis, desde que boa parte de nossa clientela, como os europeus, privilegia o zelo pelo meio ambiente, donde extraímos nossa subsistência. O problema dos fertilizantes, ou um dos maiores problemas, pois são vários, é a irreversibilidade do lançamento ao berço. É praticamente impossível, do ponto de vista técnico e financeiro, retirar os fertilizantes já despendidos nos usos agrícolas. Sendo a composição dos fertilizantes distinta da dos outros materiais ordinariamente encontradiços numa área de plantio, chocando-se o artificial com o natural, é assaz previsível que emergirão efeitos colaterais de difícil processamento geológico e biológico. Do ponto de vista procedimental, é, outrossim, desejável que desenvolvamos técnicas que não apenas retirem e otimizem o nitrogênio já existente no solo, mas que produzam e fixem esse elemento na área de crescimento radicular. Para quem não consegue fazer nenhuma outra leitura de mundo que transcenda a esfera econômica, aí está o mais perfeito exemplo da não desimportância da produção científica. O homem do campo sabe que, um dos elementos de produção, que mais pega no investimento, são os insumos. Cortar parte dessa despesa é endividar-se menos. Outro aspecto digno de consignação é o fato de estarmos tratando do trabalho de uma mulher. Discutir gênero e orientação sexual é argumentação. Ilustrar o debate com exemplos concretos é convencer. Está havendo uma grande substituição da mão de obra – e da cabeça de obra – no mercado de trabalho. E isso se deve ao fato de as mulheres estarem estudando mais que os homens. A observação é a mãe da sabedoria. Quando, portanto, você estiver ouvindo o milésimo podcast, dizendo que fazer faculdade não serve para nada, lembre-se deste artigo. O Brasil enveredou por uma senda, que fazia dele, um grande exportador de commodities, como soja, e grande importador de bens de valor agregado. A ciência desenvolvida dentro do nosso território começa a mudar o perfil desse jogo. Esse caso de sucesso realça o caráter estratégico de, por exemplo, um Plano Nacional de Educação, que dias atrás foi sancionado pelo presidente Lula. A ciência começa nos primeiros anos do Ensino Fundamental. Precisamos encantar nossos alunos com o conhecimento e as ciências. Ciência é luz! Como diria Immanuel Kant, “Aude sapere”!



