
Elon Musk: ele concorda comigo!
Capitalismo e socialismo: mera conversibilidade de formas
O lançamento do carro voador de Musk foi o maior frisson dos últimos dias. No entanto, meu artigo vai para outra direção. Num programa de entrevistas, Musk acenou para uma sociedade, que eu não encontro outro modo de classificá-la, senão, digamos, “socialista”. O trilionário vislumbrou um planeta em que a produção de bens e serviços ficará totalmente relegada aos meios tecnológicos. Será a abolição quase que na íntegra do trabalho remunerado. Raciocina ele, se a produção de riqueza extrapola os recursos financeiros de que carecemos para fazer aquisição de nossas soluções, basta que cada cidadão receba um cheque a ser compensado em todos os pontos de retirada. Esse cheque não será em papel, nem em espécie (pecúnia), será um crédito nominal, virtual. Não haverá mais o condicionamento de permuta entre assalariamento e horas trabalhadas. Quem diria? O mesmo discurso, ou muito próximo ao discurso de ninguém menos que Karl Marx. Marx vaticinou que o desenvolvimento das forças produtivas redundaria no aplainamento pelo qual deslizaria, altissonante, a sociedade socialista. Esse momento inicial, de tecnologia insuficiente, até galgar a assunção total do trabalho para si, era o introito para o verdadeiro início da história humana. A história não começaria pela invenção da escrita, mas pela inauguração do socialismo em escala global. Eu creio que essa sonhada sociedade, promissora de ócio e prosperidade, não apenas nos tornaria felizes, mas colocaria os magnatas da tecnologia num posto de poder maior do que eles já têm, embora já sejam, na prática, os homens mais empoderados. Então não muda nada, o controle continua com os mesmos, só a metodologia que é, em alguma medida, alterada. Elon Musk parece resolver um baita problema, dês que ficaremos dispensados das obras extenuantes, ao passo que o mundo demonstra que o nó górdio da questão repousa em outro tipo de contradição. Refiro-me à eterna questão de segurança e soberania dos Estados nacionais, bem como ao modo de realização do partilhamento de matérias-primas, como terras raras, e recursos energéticos. O problema não é o trabalho, é a guerra, em andamento ou em potencial. É paradoxal que, o maior vencedor e ícone do capitalismo global coetâneo, proponha extinguir ou subverter um lei econômica fundamental desse modo de produção. Porém, também isto Marx explica: é o nível de desenvolvimento da técnica que determina as relações de produção, e, por isso, mudando a forma de produção, com ela mudam as relações de produção. Mais um paradoxo: tendo alcançado um nível de domínio da natureza sem precedentes, nunca estivemos tão perto de pôr fim à nossa própria espécie, refiro-me ao colapso nuclear. A fala de Musk, ao menos do ponto de vista teórico e conceitual, é lógica, coerente e consequente. Numa sociedade em que a mão de obra vai sendo gradativamente substituída por tecnologia, a massa salarial tende a diminuir cada vez mais. Vender o que para quem? Se ninguém tem salário enquanto este permanecer jungido e condicionado à prestação de horas de serviço. Como exigir do cidadão, o trabalho, se ele deixa de existir? O Estado e os dirigentes dos arranjos tecnológicos deverão definir o valor nominal a ser creditado para cada um. Toda a engenharia social passará pelo crivo da atribuição salarial. Na prática, o cidadão comum ficará desincumbido do castigo do Éden, não precisando derramar o suor de seu rosto, mas, lado outro, ver-se-á impotente. Eis que a única coisa capaz de revolucionar a própria vida seria a exploração de si próprio pelo trabalho, o que não mais estará ao seu alcance. A maior liberdade, por conseguinte, será a maior escravidão. Calha muitíssimo bem a reflexão habermasiana sobre razão instrumental. Dito de maneira mais simples: temos o dever de pensar muito bem para que o desenvolvimento da tecnologia será vertido. O ser humano deve ser fim, e não meio. A tecnologia, esta sim, tem de ser meio e não fim. Tecnologia bem gerida é luz!





